A hipocrisia, em forma quase pura: entrevista com a pró-reitora de Graduação da USP
O UOL Educação realizou uma entrevista com a professora Selma Garrido Pimenta, pró-reitora de Graduação da USP. Como eu disse aí no título: hipocrisia em forma quase pura. Veja alguns trechos destacados: UOL Educação: Que mudanças na prova a senhora destacaria? Selma Garrido Pimenta: A primeira fase [com 90 testes de múltipla escolha] estava muito valorizada no processo como um todo. Ela tinha um peso de 50%. Agora, ela terá peso zero na nota final. Ela [ainda] será uma avaliação geral, sem nenhuma mudança na prova em si; ela terá as 90 questões e o mesmo tempo de duração. Ela será um grande filtro que classifica a partir de um nível de conhecimento bastante geral das disciplinas do ensino médio. Na segunda fase, é que nós temos a mudança significativa. Primeiro: uma redução no número de dias para a realização das provas. Com isso, buscamos diminuir o estresse que o vestibular USP provoca. Passamos a ter três dias de provas - e não mais cinco como era antes. Aqui temos a novidade maior: o candidato, que foi selecionado na primeira fase com uma visão geral dos conteúdos, tem de demonstrar, agora, um nível de conhecimento maior para o conjunto das disciplinas do ensino médio. Peso 50% é muito, vamos baixar. Para quanto? Zero. É aquela história que eu venho repisando aqui: nas carreiras fáceis, o sujeito inteligente e malandro, que fez escola boa, não precisa mais estudar até novembro. Passa para a segunda fase com uma mão nas costas e aprende as técnicas da segunda fase rapidinho em dezembro. Passa fácil, eu garanto. Por quê? Porque a primeira fase vale zero. Zero. Nada. Coisa alguma. Você veja também que aquilo que eu tenho dito é verdadeiro: a Fuvest reduziu o número de dias para economizar. Nenhum aluno fazia cinco provas na segunda fase. O máximo era quatro. Cinco dias é a visão de quem organiza. Não é a visão do aluno. Nota-se claramente que a preocupação da pró-reitora não foi, em nenhum momento, com o aluno. Nem por um só momento a USP pensou nos candidatos. Outro jogo de palavras: "o candidato tem de demonstrar (...)[na segunda fase] um nível de conhecimento maior para o conjunto das disciplinas do ensino médio". É verdade. Só que isso é ínfimo, representando 20% da nota final e um tempo de prova de cerca de 2 horas. O que é extremamente grave é que ele deixa de mostrar que sabe do tema que realmente é importante, ou seja, praticamente acabaram com as específicas. O peso segue sendo de quase 50%, mas será medido com um número de questões bem menor que antes. O grande risco disso é a Fuvest selecionar candidatos que não têm talento para a área que escolheram, aumentando a evasão e o desperdício de dinheiro público. Lá vem o pior: UOL Educação: Sendo a Fuvest tão importante, como é ter nas mãos este vestibular? Selma Garrido Pimenta: É uma grande responsabilidade. Todo o processo é feito com muito cuidado, muito estudo e muita cautela. Essas mudanças que serão implantadas no próximo vestibular, por exemplo, estão sendo estudadas desde antes de eu chegar aqui [há quatro anos]. O processo é feito com tanta cautela que está cheio de gente dentro da USP criticando a mudança repentina, que chega sem nenhum aviso prévio. Acabaram com a preparação dos megacursinhos, que tinham se programado para a Fuvest antiga e não vão conseguir se realinhar; acabaram com a segurança dos candidatos; minaram a lisura do processo. Avisar sobre mudanças com 7 meses de antecedência, se a alteração era estudada há mais de quatro anos, por quê? Por que mantiveram segredo e causaram pânico? O que a Fuvest ganhou com isso nós já sabemos: muito dinheiro. O que perdeu, também fica cada vez mais claro: confiabilidade. E a Fuvest está perdendo espaço para o novo Enem. Isso pode ter um efeito devastador nas carreiras menos concorridas. Vamos ver o efeito disso tudo daqui a alguns anos.
Escrito por Prof. Perdigão às 00h15
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