O ensino à distância na universidade pública brasileira
Como muitos já sabem, comecei a trabalhar no Tocantins na abertura e estruturação do curso de Licenciatura em Química à distância da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Uma licenciatura é um curso especialmente voltado à formação de professores. Aqui no Tocantins, por exemplo, são mais de 10 mil professores que atuam sem a formação necessária (dão aula de disciplina diferente da que estão habilitados, ou sequer têm formação docente). Para se ter uma ideia, toda a rede estadual tocantinense tem cerca de 13 mil professores. Ou seja, há a necessidade urgente de qualificar estes docentes, pois eles já estão nas salas de aula. Uma maneira de fazer isso com custo reduzido é por meio de tecnologias de informação, como redes de computador, à distância. E é essa a proposta do governo federal com o programa Universidade Aberta do Brasil (UAB). Existe um grande preconceito em relação à educação à distância (EaD). E esse preconceito, relacionado à qualidade, é absolutamente justificado, uma vez que os primeiros a explorar esta modalidade de ensino no Brasil foram empresários mais interessados no produto e no lucro que na qualidade. E reduzir a qualidade (juntamente com os custos) no EaD é muito mais fácil de fazer que na modalidade presencial. A proposta do governo federal é muito diferente, e muito tem sido investido para que os cursos EaD sejam eficazes e tenham qualidade. A contratação de orientadores acadêmicos com qualificação mínima de mestrado para polos universitários nos estados de MA, PA, PI, RO e TO foi apenas uma dessas ações. São muitos os atores presentes no programa UAB, tocado principalmente pela Capes. São mais atores que no EaD das universidades particulares, e atores mais qualificados. Em uma universidade que se propõe a abrir graduações EaD, existe o coordenador geral EaD, os coordenadores de curso (para cada graduação aberta), os professores conteudistas (que elaboram o material didático e são responsáveis pelas disciplinas) e os tutores à distância (que eliminam dúvidas dos alunos). Nos polos, ou seja, no local distante onde o curso é ministrado, existem ainda o coordenador de polo (cuja função é garantir que tudo esteja funcionando bem - salas de aula, computadores, laboratórios, recursos humanos, avaliações) e o tutor presencial (que dá suporte no polo de aprendizagem). Nós, os orientadores acadêmicos, chegamos para atuar como um intermediário entre o coordenador de curso, o coordenador de polo e os tutores. Eu e a maioria dos colegas estão trabalhando mais fortemente com as universidades que geram o conteúdo, especialmente com o coordenador de curso, para garantir que tudo dê certo. No meu caso, que, aliás, é o caso da maioria, o curso só será iniciado no princípio de 2010. Assim, estamos trabalhando para que tudo esteja funcionando bem até lá - especialmente os materiais didáticos e o ambiente virtual de aprendizagem, o chamado sistema Moodle. É importante dizer, e eu gosto de enfatizar isto porque é o modelo com que eu sempre trabalhei no BoaProva, que o curso à distância exige, por parte do aluno, espírito autodidata e de esforço pessoal - claro que isso aumenta a eficiência do aprendizado. Este é o ponto mais crítico do sistema, mas é, ao mesmo tempo, o mais admirável, porque privilegia a meritocracia. É frequente que o aluno chegue à avaliação das disciplinas sem ter estudado nada, acreditando que "o curso à distância é mais fácil". No entanto, ao contrário, o curso à distância é mais difícil, porque, como alunos, não temos quem fiscalize o nosso trabalho, e nos exija dedicação aos estudos. Assim, o ensino à distância na universidade pública brasileira pode ser considerado como excelente opção ao presencial, uma vez que tem baixos custos e eficiência comprovada, possibilitando, como no meu caso, levar um curso de graduação em Química para lugares tão distantes quanto as praias de Araguatins, ou o paraíso do Jalapão (Mateiros), ou as belas paisagens de Araguacema, sem que isso implique altos custos e estrutura ociosa. Um sistema racional para um país como o Brasil, com dimensões continentais e distribuição populacional baixa e irregular no interior.
Escrito por Prof. Perdigão às 09h49
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